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28 de junho de 2009
25 de abril de 2009
Uma breve história
«Já agora que falei de Portugal não quero deixar de mencionar um momento da minha vida que, por si só, justificaria o sentir-me grato ao destino que me empurrou para a Holanda e nela me fez permanecer. Esse momento deu-se quando os holandeses se meteram a salvar o meu país.
Para aqueles que o esqueceram, e para outros que sendo então demasiado jovens disso senão aperceberam, recordarei que graças a uma revolução em Abril de 1974 desapareceu de Portugal um regime de ditadura fascista que tinha durado quarenta e sete anos, e o qual, à semelhança das mais ditaduras, fascistas ou não, protegia os ricos, oprimia os pobres e torturava os oponentes.
Entenda-se que esta versão é simplificada ao extremo e a realidade bem mais cinzenta e complexa. Seja como for, com a revolução a maioria dos fascistas tornaram-se instantaneamente democratas, inclusive os militares, contra quem ainda no dia anterior havia sobejas provas de alegremente terem massacrado e torturado.
Desde essa data, por razões obscuras que têm a ver com a economia, o comércio e outros truques que tornam os ricos mais ricos e os pobres mais desgraçados, Portugal é um país que, em 1981, vive de doações e empréstimos, tendo como principal e dolorosa fonte de receita o dinheiro que lhe remetem os seus emigrantes.
Acontece que, ao dar-se a revolução, os holandeses mostraram ser os mais entusiastas do país em que nasci. Uma alegria. Durante meses e meses os jornais, a rádio, a televisão, não se cansavam de mostrar como pouco a pouco iam nele tomando forças as frágeis raízes da democracia. Assim a modos de uma euforia colectiva onde não havia lugar nem era apreciada uma voz como a minha que, conhecendo melhor o país, a sua história, a sua sociedade, as suas castas, advertia contra o ludíbrio dos dirigentes passados, presentes e in spe.
Porque os holandeses têm essa outra qualidade muito sua: curvam-se obedientes e atentos ao que lhe diz o perito, mas apenas quando o perito sai do mesmo solo e lhes pertence. Os restantes, por mais competentes e argutos, são olhados com a desconfiança que se reserva aos produtos sem selo de garantia.
Entusiasmados e eufóricos, pois, os holandeses meteram-se em grande número a apadrinhar a minha pátria, ansiosos por ver instalados nela líderes que a sua simpatia achava mais sérios, mais competentes, sem se importar com o facto de que ninguém esperava esses líderes, que eles só existiam à custa da muita propaganda que deles era feita com auxílio dos dinheiros mais variados.
Essa é também outra e curiosa idiossincrasia holandesa: a de saber sempre o caminho certo, a solução mais justa e segura.
Quando em Portugal foi permitido, por quem realmente detinha o poder, que os comunistas assumissem durante meses uma aparência de predominância - inteligente medida que lhes permitia salvar a face e aos seus adversários manter nas décadas futuras o medo de um povo simples, que então ainda imaginava os comunistas a estripar crianças à faca - os holandeses, ingénuos e um bocadinho ridículos no seu messianismo, saíram à rua com uns cartazes onde lia Houndt Portugal Vrij (Mantenha Portugal Livre).
Como é de uso em tais ocasiões, as personalidades importantes assinaram listas de adesão, cada um contribui com o seu florim para os peditórios, e meses mais tarde Portugal tinha de facto um governo socialista a garantir as liberdades, a moralidade, o progresso, e fazendo a promessa de realizar uma coisa vaga que se chama "O socialismo com face humana".
Não seria verdadeiro nem justo atribuir apenas á acção dos líderes socialistas portugueses o retorno de Portugal à corrupção, à ineficiência, ao desleixo, ao nepotismo, mas é indubitável que eles contribuíram em larga escala para tudo isso, ajudados moral e materialmente pelos correligionários holandeses e alemães.
Outro corolário da inépcia governamental desses líderes foi acelerar o retorno das forças de direita, tornando Portugal no que é hoje (1981), o país mais pobre da Europa, com um número oficial de seiscentos mil desempregados numa população de nove milhões, as suas ruas e praças cheias de mendigos, esfomeados, doentes, crianças abandonadas, todos a estender a mão à caridade.
Os holandeses, constantando o descalabro dos seus protegidos, desinteressaram-se desde então do meu país como garotos que se aborrecem de um brinquedo. Aqueles a quem tenho apontado essa peculiar ligeireza do comportamento e dos sentimentos, acham-me isensato, desagradecido, até um bocadinho estúpido. E com condescendência enumeram os argumentos que segundo eles lhes dão razão.
Para começar eu vivo aqui, agasalhado, confortável, com salário e seguros, razão número um para não me afligir nem agitar tanto. Em Portugal, acrescentam depois, as liberdades fundamentais estão asseguradas. Além disso é um país historicamente pobre (!). E em matéria de auxílio e interesse estou totalmente errado. A prova? Eles continuam a ir lá de férias, acrescentando com um sorriso malicioso para que eu compreenda: é baratinho.»
Breve excerto de "Com os holandeses". Uma história do 25 de Abril.
Agora, não resisto a colocar parte, repito apenas parte, do final deste livro de J. Rentes de Carvalho para que aqui assim não surja tão desgarrada a pequena história sobre o 25 Abril de 1974.E também para que se possa intuir um pouco melhor da essência do livro e seu autor e, se me permitem, a estranha : ) empatia que com ele criei. Quer pela parte portuguesa, quer pela holandesa. E que se diga que a minha saudade pela holanda vem de quando tinha 8 anitos (tenho 37 ) e uma tia querida para cá emigrou... Ora aqui fica o apontamento:
«Existe na língua portuguesa uma palavra, "saudade", estranha, intraduzível, que designa a recordação nostálgica de pessoas, terras, coisas e sentimentos distantes ou passados, e o desejo de tudo reviver. Essa é mais ou menos a definição que dela dão os dicionários. Porém, o sentimento da saudade, ao que dizem exclusivamente português, é mais complexo do que a explicação sumária dada pelos filólogos, chegando a abranger as nostalgias hipotéticas e impossíveis, fazendo até ressentir dolorosamente ausências e perdas irreais.
Parece complicado, mas na realidade não é. Alguns estrangeiros que visitam Portugal, ao deixar que depois de um dia de sol o vinho lhes amacie a alma e o coração, quando ouvem pela primeira vez a melodia dolente do fado ressentem um baque estranho, indefenível, que lhes enche os olhos de lágrimas.
Esse é o primeiro passo. A saudade aparece logo a seguir, e quem a ela se entrega só com esforço retorna à normalidade. Os portugueses, que recebem esse baque à nascença, vêem a sua vida regida por esse estranho sentimento, chegando alguns ao extremo de sentir saudade da saudade, o que lhes ocasiona mudanças repentinas de humor, fazendo-os passar sem aviso da alegria intensa à melancolia profunda. Outros, igualmente complicados, não podem evitar sofrer já hoje da saudade que só no futuro deveriam sentir.
A essa última categoria pertenço eu. E assim me verão palmilhar as ruas de Amsterdam sem razão nem destino, envolto pela turba que passa, ou meter pelos atalhos e as estradas da província, parando nos molhes, subindo aos diques, caminhando longamente pelas praias e pelos bosques. A temer o momento em que, longe da Holanda, ela se torne para mim uma saudade.»
Mariza - Oxalá
Para aqueles que o esqueceram, e para outros que sendo então demasiado jovens disso senão aperceberam, recordarei que graças a uma revolução em Abril de 1974 desapareceu de Portugal um regime de ditadura fascista que tinha durado quarenta e sete anos, e o qual, à semelhança das mais ditaduras, fascistas ou não, protegia os ricos, oprimia os pobres e torturava os oponentes.
Entenda-se que esta versão é simplificada ao extremo e a realidade bem mais cinzenta e complexa. Seja como for, com a revolução a maioria dos fascistas tornaram-se instantaneamente democratas, inclusive os militares, contra quem ainda no dia anterior havia sobejas provas de alegremente terem massacrado e torturado.
Desde essa data, por razões obscuras que têm a ver com a economia, o comércio e outros truques que tornam os ricos mais ricos e os pobres mais desgraçados, Portugal é um país que, em 1981, vive de doações e empréstimos, tendo como principal e dolorosa fonte de receita o dinheiro que lhe remetem os seus emigrantes.
Acontece que, ao dar-se a revolução, os holandeses mostraram ser os mais entusiastas do país em que nasci. Uma alegria. Durante meses e meses os jornais, a rádio, a televisão, não se cansavam de mostrar como pouco a pouco iam nele tomando forças as frágeis raízes da democracia. Assim a modos de uma euforia colectiva onde não havia lugar nem era apreciada uma voz como a minha que, conhecendo melhor o país, a sua história, a sua sociedade, as suas castas, advertia contra o ludíbrio dos dirigentes passados, presentes e in spe.
Porque os holandeses têm essa outra qualidade muito sua: curvam-se obedientes e atentos ao que lhe diz o perito, mas apenas quando o perito sai do mesmo solo e lhes pertence. Os restantes, por mais competentes e argutos, são olhados com a desconfiança que se reserva aos produtos sem selo de garantia.
Entusiasmados e eufóricos, pois, os holandeses meteram-se em grande número a apadrinhar a minha pátria, ansiosos por ver instalados nela líderes que a sua simpatia achava mais sérios, mais competentes, sem se importar com o facto de que ninguém esperava esses líderes, que eles só existiam à custa da muita propaganda que deles era feita com auxílio dos dinheiros mais variados.
Essa é também outra e curiosa idiossincrasia holandesa: a de saber sempre o caminho certo, a solução mais justa e segura.
Quando em Portugal foi permitido, por quem realmente detinha o poder, que os comunistas assumissem durante meses uma aparência de predominância - inteligente medida que lhes permitia salvar a face e aos seus adversários manter nas décadas futuras o medo de um povo simples, que então ainda imaginava os comunistas a estripar crianças à faca - os holandeses, ingénuos e um bocadinho ridículos no seu messianismo, saíram à rua com uns cartazes onde lia Houndt Portugal Vrij (Mantenha Portugal Livre).
Como é de uso em tais ocasiões, as personalidades importantes assinaram listas de adesão, cada um contribui com o seu florim para os peditórios, e meses mais tarde Portugal tinha de facto um governo socialista a garantir as liberdades, a moralidade, o progresso, e fazendo a promessa de realizar uma coisa vaga que se chama "O socialismo com face humana".
Não seria verdadeiro nem justo atribuir apenas á acção dos líderes socialistas portugueses o retorno de Portugal à corrupção, à ineficiência, ao desleixo, ao nepotismo, mas é indubitável que eles contribuíram em larga escala para tudo isso, ajudados moral e materialmente pelos correligionários holandeses e alemães.
Outro corolário da inépcia governamental desses líderes foi acelerar o retorno das forças de direita, tornando Portugal no que é hoje (1981), o país mais pobre da Europa, com um número oficial de seiscentos mil desempregados numa população de nove milhões, as suas ruas e praças cheias de mendigos, esfomeados, doentes, crianças abandonadas, todos a estender a mão à caridade.
Os holandeses, constantando o descalabro dos seus protegidos, desinteressaram-se desde então do meu país como garotos que se aborrecem de um brinquedo. Aqueles a quem tenho apontado essa peculiar ligeireza do comportamento e dos sentimentos, acham-me isensato, desagradecido, até um bocadinho estúpido. E com condescendência enumeram os argumentos que segundo eles lhes dão razão.
Para começar eu vivo aqui, agasalhado, confortável, com salário e seguros, razão número um para não me afligir nem agitar tanto. Em Portugal, acrescentam depois, as liberdades fundamentais estão asseguradas. Além disso é um país historicamente pobre (!). E em matéria de auxílio e interesse estou totalmente errado. A prova? Eles continuam a ir lá de férias, acrescentando com um sorriso malicioso para que eu compreenda: é baratinho.»
Breve excerto de "Com os holandeses". Uma história do 25 de Abril.
Agora, não resisto a colocar parte, repito apenas parte, do final deste livro de J. Rentes de Carvalho para que aqui assim não surja tão desgarrada a pequena história sobre o 25 Abril de 1974.E também para que se possa intuir um pouco melhor da essência do livro e seu autor e, se me permitem, a estranha : ) empatia que com ele criei. Quer pela parte portuguesa, quer pela holandesa. E que se diga que a minha saudade pela holanda vem de quando tinha 8 anitos (tenho 37 ) e uma tia querida para cá emigrou... Ora aqui fica o apontamento:
«Existe na língua portuguesa uma palavra, "saudade", estranha, intraduzível, que designa a recordação nostálgica de pessoas, terras, coisas e sentimentos distantes ou passados, e o desejo de tudo reviver. Essa é mais ou menos a definição que dela dão os dicionários. Porém, o sentimento da saudade, ao que dizem exclusivamente português, é mais complexo do que a explicação sumária dada pelos filólogos, chegando a abranger as nostalgias hipotéticas e impossíveis, fazendo até ressentir dolorosamente ausências e perdas irreais.
Parece complicado, mas na realidade não é. Alguns estrangeiros que visitam Portugal, ao deixar que depois de um dia de sol o vinho lhes amacie a alma e o coração, quando ouvem pela primeira vez a melodia dolente do fado ressentem um baque estranho, indefenível, que lhes enche os olhos de lágrimas.
Esse é o primeiro passo. A saudade aparece logo a seguir, e quem a ela se entrega só com esforço retorna à normalidade. Os portugueses, que recebem esse baque à nascença, vêem a sua vida regida por esse estranho sentimento, chegando alguns ao extremo de sentir saudade da saudade, o que lhes ocasiona mudanças repentinas de humor, fazendo-os passar sem aviso da alegria intensa à melancolia profunda. Outros, igualmente complicados, não podem evitar sofrer já hoje da saudade que só no futuro deveriam sentir.
A essa última categoria pertenço eu. E assim me verão palmilhar as ruas de Amsterdam sem razão nem destino, envolto pela turba que passa, ou meter pelos atalhos e as estradas da província, parando nos molhes, subindo aos diques, caminhando longamente pelas praias e pelos bosques. A temer o momento em que, longe da Holanda, ela se torne para mim uma saudade.»
Mariza - Oxalá
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